A VOCAÇÃO DO DIÁCONO

I – ASPECTOS ANTROPOLÓGICOS


Vocação não deve ser entendida somente sob o ponto de vista da sacralidade. Também não como uma realidade abstrata. Havemos sempre que considerar pressupostos concretos para sua realização: pessoas com individualidade, história, tempo e lugar bem definidos. Conseqüentemente, vocação se identifica com profissão e esta com a natureza do homem.
Vocação para o cristão origina-se com o chamado de Deus e complementa-se com a resposta do homem à mediação da Divindade. A resposta ao Deus que chama é um exercício de fé e obediência, expressas no acolhimento e na disposição de trilhar a via proposta.
Vocação, como resultado desse processo de chamado/resposta que envolve toda a vida, exige um acompanhamento que é decisivo para seu amadurecimento. Assim, chamado e resposta têm igual importância, sendo a realização vocacional uma conquista corroborada pela graça e pela natureza, em vista da meta a ser alcançada.
Podem existir falsas e veras vocações. Uma vocação verdadeira implica em serenidade interior. Evidente que qualquer chamado que afronta os desejos mais íntimos de uma pessoa sadia, não constitui verdadeira vocação.

II – ASPECTOS BÍBLICO-TEOLÓGICOS


Desde as mais antigas tradições religiosas da humanidade, anteriores a Abraão, consideravam-se o tema da ‘Eleição de Deus’. Em toda a ‘História da Salvação’, Deus chama para além dos cálculos e das previsões humanas. Na história dos Patriarcas é Deus quem escolhe ( Gn 12,3; 22,18; 26,4; 28,14); nos Profetas, a eleição divina se realiza por uma vocação especial (Am 7,15; Is 6,1-8; Jr 1, 4-10). Na promessa de restauração universal, Deus, um dia, estenderá sua eleição a todas as nações da terra (Is 55, 3-5).
O eleito é chamado a agir em nome de Deus. Todas as vocações vétero-testamentárias têm como objetivo uma missão comum ( Gn 12,1; Am 7,15; Is 6,9; Jr 1,7; Ez 3, 1-4; etc).
Na origem da vocação encontra-se a eleição divina; em seu termo, a vontade divina a ser cumprida. É esse o significado da mudança de nome dos eleitos (Gn 17,5; 32,29; Is 62,2).
O chamado de Deus, (1) dirigido à consciência mais profunda da pessoa, produz mudança completa em sua existência, tanto na vida exterior como no coração, transformando o eleito em outra pessoa – Deus chama pelo nome (Gn 15,1; Ex 3,4; Jr 1,11; Am 7,8); (2) para significar uma tomada de posse e uma mudança de vida, Deus dá um nome novo (Gn 17,5; 32,29; Is 62,2); (3) aguarda uma resposta/adesão consciente, de fé e de obediência, que pode ocorrer instantaneamente (Gn 12,4; Is 6,8) ou após alguma relutância ( Ez 3,14; Jr 1,6; 20,7); (4) se dá em vista de uma missão porque Deus é o fiador (Ex 3, 12.14; Dt 7,6).
A vocação torna o eleito testemunha de Deus.
No Novo Testamento destaca-se a proclamação de que Jesus é o ‘Missus a Patre’, o grande missionário do Pai, em cujas mãos o Pai tudo deixou (Mt 11,27). Jesus se apresenta como o ‘Enviado de Deus’ (Lc 4, 17-21) e afirma que recebeu a missão do Pai (Jo 8,16).
A Ekklesia, comunidade daqueles que o Pai chamou, se reconhece como ‘Ekklesia tou Theou’ (Assembléia de Deus), a nova comunidade de Israel por convocação escatológica de Deus. A Igreja entende cristianismo como vocação. Em Rm 1, 1-17; 1Cor 1,1ss, Paulo afirma ser apóstolo por vocação e que os cristãos são santos também por vocação. Em Rm 8,16s, diz que a vida cristã é uma vocação porque é uma vida no Espírito.
Vocação é um meio para Jesus: 1 – reunir em torno de si os doze (Mc 3,13s); 2 – chamar outros (Mc 10,21; Lc 9, 59-62); 3 – apelar para o seguimento a Si num caminho novo (Mt 16,24); 4 – porquemuitos são chamados, poucos são escolhidos (Mt 22,14).
Em 2Jo 1,1, João chama a Igreja de ‘Senhora Eleita’ que ouve a voz do Espírito e lhe responde: Maranatha! – Vem Senhor Jesus!(Ap 22,20). Sendo a Igreja continuadora da missão de Jesus Cristo na força do Espírito Santo.

III - A VOCAÇÃO DO DIÁCONO


1 – Contexto
A vocação de diácono, visto ser ele pai e esposo, exercer uma profissão civil e ser consagrado à comunidade eclesial pelo sacramento da Ordem, abrange três dimensões: familiar, profissional e eclesial. Daí resulta desafios que devem ser administrados diariamente para serem inseridos ao serviço da missão. É necessário harmonizar todos os conflitos, sem privilegiar nenhuma das dimensões, adotando uma escala de valores ditada pela vivencia dos sacramentos do Matrimonio e da Ordem e pela responsabilidade profissional. Buscar sempre o equilíbrio, sem o qual não existe plena realização vocacional.
2 – Chamado de Deus
Vocação é antes de tudo, dom de Deus (Jr 1, 4-5); um bem para o vocacionado e também para a Igreja. Deve ser acolhido bem inserido nas circunstancias de tempo e de ambiente. “Na avaliação da autenticidade de uma vocação devem ser levadas em conta as aptidões objetivas do candidato, a livre determinação da vontade e a confirmação do chamado pela Igreja, tudo isso em estreita união com a família do candidato, com a comunidade eclesial e com os responsáveis pela formação diaconal.”
O chamado acontece em vista de uma missão específica que se realiza através de caminhos ligados à realidade em que se vive. Assim, o discernimento vocacional deve levar em conta, além dos critérios objetivos, os requisitos pessoais, espirituais, familiares e comunitários (Diretrizes, 135 -139).
“O diaconato empenha ao seguimento de Jesus, nesta atitude de serviço humilde que não só se exprime nas obras de caridade, mas investe e forja o modo de pensar e agir (João Paulo II, L’Osservatore Romano, Ed. Port., n. 43, 24/10/93).”
“A função e a missão do diácono não se deve avaliar com critérios meramente pragmáticos, por estas ou aquelas funções... O carisma do diácono é ser sinal sacramental de Cristo-Servo (P 697-698).”
Considerando que à vocação sempre corresponde uma missão, Deus que chama, ao invés de uma resposta, aguarda mesmo é uma acolhida pessoal, responsável, consciente, adulta, generosa e gratuita. O vocacionado não pode restringir-se a oferecer apenas ‘migalhas’ do seu tempo, ou ‘sobras’ de suas energias; será uma consagração de toda a vida (Diretrizes 175-181). Aquele que é chamado deve identificar-se com o projeto de quem o chamou. A vontade de Deus constitui a Lei maior (Jo 4,34).
Acolher a vocação é fazer um pacto com Cristo crucificado,loucura para os que se perdem, mas poder de Deus para os que se salvam (1Cor 1,18). A Cruz gloriosa é tempero para um frutuoso ministério eclesial. Para que seu coração pulse ao ritmo do coração do Redentor, deve o vocacionado abraçar a Cruz como dom, como privilégio! Vivenciar o amor de Cristo de tal modo que nem a tribulação, nem a angústia... nada nos possa dEle separar ( Rm 8,35).
Quem é meu próximo? (Lc 10,29). Jesus nos ensinou que o próximo é todo aquele que está perto de nós no dia-a-dia de nossa vida. Para o diácono, esposo e pai, ninguém é mais próximo que sua família. Sua abertura aos outros começa na sua casa! Acolher o outro não apenas humanamente, mas com atitude evangelizadora!E isso tem um nome: Caridade! – A caridade tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta (1Cor 13,7). Em seqüência, o próximo a ser amado é o colega de profissão, a comunidade onde atua, a sociedade em geral. O diácono é, por excelência, um homem de fronteira, capaz de inaugurar novas formas de serviço, a exemplo de Cristo. Não terá preconceitos! O diácono será um irmão universal!
O processo formativo não deve cessar com a ordenação. É uma exigência da própria vocação diaconal. O diácono deve estar sempre atualizado para que seu serviço corresponda às necessidades de cada momento histórico (Diretrizes 221).
A vocação é condição basilar e primeira de todo o processo de escolha, seleção e formação de candidatos, sendo os demais requisitos decorrência de tal pressuposto. Ao chamado de Deus devem se subordinar todos os critérios seletivos (Diretrizes 127).

Bibliografia:

1 – Bíblia Sagrada, Trad. CNBB
2 – Diretrizes para o Diaconado Permanente (CNBB)
3 – Teologia do Diaconado, Pe. Valter M. Goedert
4 – Site da Comissão Nacional dos Diáconos

Diác. José Maria Pinheiro Furtado


 

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