CATARINA DE LABOURÉ, A SANTA DO SILÊNCIO

Catarina Labouré nasceu no dia 2 de maio de 1806, numa aldeia da Borgonha, Fain-les-Moutiers. Era a oitava dos dez filhos de Pedro e Madalena Labouré. Logo no dia seguinte, o sino da Igreja anunciava o batismo de Catarina.
“Com o nascimento de Catarina, já eram oito filhos: uma menina, Maria Luísa, e sete meninos. Mais tarde, ganhou novos irmãos Tonine e Augusto.” Nessa família, onde reinava tanto amor fraterno, Deus sempre ocupou o primeiro lugar e os filhos, antes mesmo de aprenderem a ler, já sabiam as orações.


Enfraquecida pelo trabalho duro e pelas maternidades frequentes, a mãe de Catarina morre aos 46 anos, deixando a família em grande sofrimento. Catarina, com apenas nove anos, refugia-se no imenso amor da Virgem Maria: “De agora em diante, Tu serás a minha mamãe”.


Catarina e sua irmã mais nova, Tonine, passaram dois anos morando com uma tia e aos doze anos, quando sua irmã mais velha descobre sua vocação para a vida religiosa e consagrada, ela assume a lida da casa. Seu pai, resistiu um pouco, mas consentiu que Maria Luísa seguisse seu caminho.


Mesmo com muito trabalho na direção da casa e da fazenda onde morava, Catarina não deixava de assistir à Missa e em 1818 fez a sua primeira comunhão.

O CHAMADO
Além da sua vida intensa de oração, a jovem também jejuava às sextas-feiras e sábados e mesmo em tempo de muito frio, ajoelhava-se, sempre que o trabalho permitia, sobre as lajes geladas da Igrejinha de Fain.


Era muito estimada por todos e diversos rapazes se apresentaram, mas sua resposta era sempre a mesma: “não”.
Aos 19 anos, “um estranho sonho confirma-lhe o verdadeiro sentido de sua vida: parece estar em oração, na Igreja de Fain. No autor um sacerdote idoso, revestido dos paramentos sagrados, celebra a missa e terminada a cerimônia, ele faz-lhe um sinal para se aproximar. Catarina, assustada, foge...mas o sonho continua. Estava ela à cabeceira de um doente. Lá está também o velho padre, e lhe diz: “Minha filha, é bom tratar os doentes. Agora foges de mim, mas um dia serás feliz por vir a mim. Deus tem os seus desígnios sobre ti, não o esqueças.”” Catarina permaneceu silente sobre este encontro.


“O caminho da dedicação estava traçado: doação total, a serviço dos mais desfavorecidos, no seguimento de Jesus Cristo.”
Aos 22 anos, ciente de que sua irmã Tonine poderia substituir-lhe nos afazeres da fazenda, decidiu contar ao pai sobre sua vocação e a resposta é imediata: “não de deixo ir”.


“Catarina se submete ao pai, a quem tanto ama, embora com grande pesar no coração.”
Pedro Labouré quer, a todo custo, desviar a filha dos seus projetos e resolve mandar Catarina passar uma temporada na casa do seu filho Carlos, que tem um restaurante para operário em Paris.


Pouco dias depois embarca para Paris e jamais tornaria a ver a sua pequena cidade de Fain-les- Moutiers.
A GRANDE MUDANÇA
“Em Paris, no restaurante do irmão, Catarina trabalha corajosamente. Este serviço, que se prolonga por todo o ano, é para ela fonte de grande sacrifício.”


Sua cunhada, esposa de Humberto Labouré, dirigia, em Châtillon-sur-Seine, um pensionato, frequentado pelas melhores famílias da região. Carlos impressionado com a angústia da irmã a encaminha para Châtillon.
Foi calorosamente acolhida, mas não se sentia a vontade naquele meio aristocrático e que não condizia com a sua simplicidade. Mal chegou e já sonhava em voltar.


Mas DEUS a esperava ali.
“Sabendo da existência duma casa de Filhas da Caridade naquela cidade, Catarina resolve ir até lá; seu desejo de se tornar religiosa cresce cada vez mais e quer confiar isto à Superiora. É conduzida ao parlatório. Um quadro atrai sua atenção, é o retrato de um padre idoso.
Mas ela já viu este olhar que a fita com doçura:
“- Eis o Padre que vi em sonho! É o mesmo, mas quem é ele?”
“- É o nosso fundador, São Vicente de Paulo”, responde a jovem irmão que lhe acompanhava.
Ele havia dito que Catarina iria até ele, e assim aconteceu. Ela silencia, mas uma grande luz a ilumina, a paz e a alegria inundam seu coração. E Catarina, não tinha dúvida, seria Filha de Caridade.


Mas obediente ao pai, esperava o seu consentimento. E sua cunhada consegue convencê-lo e uma profunda alegria invade seu coração: “Senhor, aqui estou”
E em 1830, aos 24 anos entra como noviça na Casa Mãe das Filhas da Caridade, na rue du Bac, 140, em Paris, para passar ali o seu tempo de formação.


Poucos dias após a sua chegada, Catarina tem a alegria de participar da festas e celebrações por ocasião da transladação do corpo de São Vicente de Paulo da catedral de Notre Dame de Paris para a Igreja de São Lazaro.
Era mais um sinal que lhe fazia São Vicente e ela escreveria mais tarde: “Feliz, parecia-me não estar mais na terra.”
“Depois da transladação, as festas se prolongaram como uma novena, na capela dos Padres Lazaristas onde o relicário fica exposto.” As irmãs vinham diariamente rezar diante das santas relíquias e Catarina relatou:
“-Eu tinha tanta pena de deixar São Lázaro... Mas, encontrava outra vez São Vicente, ou pelo menos o seu coração, onde ele me aparecia, cada vez que eu voltava. Tinha a consolação de vê-lo, por cima do pequeno relicário, na capela das Irmãs...Apareceu-me três vezes, diferente, três dias seguidos: branco cor de carne, o que anunciava a paz, a serenidade, a inocência e a união; e depois vermelho fogo, que deve acender a caridade nos corações; e depois vi-o vermelho escuro, que me dava tristeza no coração; esta tristeza estava relacionada com a mudança de governo.”


Três meses mais tarde, o Rei Carlos X foi derrubado e a França entregue aos horrores da Revolução. Catarina relata o fato ao seu confessor, Padre Aladel, mas é aconselhada a permanecer em silêncio e a continuar seu noviciado.
Pouco depois, Catarina viu o Cristo presente na Eucaristia, mais além das aparências do pão: “Vi Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento durante todo o tempo do meu Seminário, exceto todas as vezes em que duvidava.” A 6 de junho de 1830, festa da Santíssima Trindade, o Cristo lhe aparece como Rei crucificado, despojado de todos os seus paramentos.
Catarina permanecia em silêncio, humilde e certamente a Virgem Maria já a observava.

PRIMEIRA APARIÇÃO
No dia 18 de julho de 1830 a Madre Marta ensinava às noviças sobre a devoção aos santos, especialmente à Santíssima Virgem. E Catarina que há tanto tempo desejava vê-la adormeceu pensando que São Vicente lhe concederia esta graça.

“Pelas onze e meia da noite, ouço chamar pelo meu nome: «Minha irmã! Minha irmã!»
Um menino de quatro para cinco anos, vestido de branco me diz: « Venha à Capela, a Virgem Santíssima a espera».
Imediatamente, veio-me o pensamente: Mas vão ouvir-me! Aquele menino me responde:
«Fique tranqüila, são onze e meia, todo mundo dorme, venha, eu espero».

Vestiu-se rapidamente e seguiu o menino e por passava as luzes estavam todas acesas. Na Capela as velas estavam todas acesas como na missa de Natal. Mas não viu a Virgem, mesmo assim, foi até o Santuário e ajoelhou-se. Pela meia noite, o menino disse: «Eis a Santíssima Virgem, aqui está!»
Catarina ouviu um “frufru” de um vestido de seda, uma Senhora lindíssima senta-se na cadeira do Padre Diretor e o menino repete com voz forte: «Eis a Santíssima Virgem»
Assustada deu um salto e ajoelhou-se no altar com as mãos apoiadas nos joelhos de Maria, que lhe disse como deveria comportar-se para com seu diretor e lhe confiou várias coisas, que foram reveladas poucos meses antes de sua morte, em 1876, num relato escrito de próprio punho:

«Minha Filha, o bom Deus quer encarregar-vos de uma missão. Havereis de sofrer muito, mas vencereis essas penas, pensando que as suportais ela glória de Deus. Sereis contestada, mas não vos faltará a graça. Não temais. Vereis certas coisas, dizei-as. Sereis inspirada em vossas orações. »

«Os tempos são maus. Desgraças vão cair sobre a França; o trono será derrubado...o mundo inteiro será perturbado por desgraças de toda sorte...mas:
Vinde ao pé deste altar. Aqui as graças serão abundantes para os que a pedirem com confiança e fervor. Serão concedidas aos grandes e aos pequenos... »

Catarina ignorou quanto tempo se passou e a Virgem desapareceu com uma luz que se apaga.

APARIÇÃO DE 27 DE NOVEMBRO DE 1830
Na primeira aparição a Virgem disse à Catarina que Deus queria encarregá-lá de uma missão, a qual somente foi revelada na aparição do dia 27 de novembro de 1830. Era o sábado, antes do primeiro domingo do advento, ás cinco e meia da tarde.
“Depois da leitura da meditação, em grande silêncio, pareceu-me ouvir um ruído do lado da tribuna; tendo olhado para esse lado, percebi a Santíssima Virgem. Estava de pé, vestida de branco aurora, os pés apoiados numa bola, de que só vi a metade; nas mãos, elevadas á altura do peito, trazia um globo que sustentava num gesto muito natural, com os olhos erguidos para o céu... Seu rosto era de tal beleza que não poderia descrever.
De repente, percebi anéis nos seus dedos, cobertos de pedras preciosas, umas maiores e outras menores, que lançavam raios, uns mais belos que os outros.
Enquanto eu me embevecia em contemplá-la, a Virgem abaixou os olhos, fixou-os sobre mim e uma voz interior me falou:

«Este globo que vedes, representa o mundo inteiro, especialmente a França... e cada pessoa em particular».

Aqui não sei exprimir o que senti, nem como eram belos, deslumbrantes, os raios que via! A voz me disse ainda:

«Estes raios são o símbolo das graças que derramo sobre as pessoas que mas pedem».”

Nesse momento, não sei onde estava... Formou-se um quadro oval em torno da Santíssima Virgem, onde estavam escritas com letras de outro estas palavras:

Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós”.

E uma voz me disse:

«Fazei cunhar uma medalha conforme este modelo. Todas as pessoas que a trouxerem ao pescoço receberão grandes graças; as graças serão abundantes para os a trouxerem com confiança».

No mesmo instante, o quadro pareceu voltar-se e vi o reverso da medalha: a letra M, encimada por uma cruz, e em baixo, dois corações, um, corado de espinhos e o outro, transpassado por uma espada.
Pareceu-me ouvir uma voz que me dizia: « O M e os dois corações dizem bastante! »
Maria, Jesus...dois sofrimentos, unidos para nossa Redenção.

DIFUSÃO DA MEDALHA
O confessor de Catarina continuava descrente mesmo após este novo relato e julgava que tudo era fruto de sua imaginação. Mas perturbado com a insistência de Catarina, o Padre Aladel contou os fatos ao Arcebispo de Paris e este autorizou a cunhagem da Medalha.
Em fevereiro daquele ano uma terrível epidemia de cólera faria mais de 20.000 mortos e as filhas da Caridade começaram a distribuir as primeiras medalhas em maio de 1832. E as curas multiplicam-se, bem como as proteções e conversões. O povo de Paris chama a medalha de “milagrosa”.

IRMÃ CATARINA DEPOIS DAS APARIÇÕES
“Aparentemente, nenhuma vida religiosa foi mais comum, mais simples do que a sua.
Ela rezava, obedecia, submetia-se, sem comentários. Verdadeiramente, como declarou Papa Pio XII, por ocasião da sua beatificação: «A Santa do dever e do silêncio. »”
As aparições foram uma luz na vida de Irmã Catarina. A Virgem Maria lhe revelou a fisionomia de Deus e Catarina aprendeu a reconhecê-lo nas pessoas que sofrem.
Pouco depois de tornar-se irmã foi enviada a um asilo de velhinhos em Enghien. Ali passou toda sua vida, sem recusar qualquer trabalho. Porém, como sempre, falava pouco, vivia num estado constante de recolhimento e orava:

“Senhor, eis-me aqui, dai-me o que quiserdes.
Se me dá alguma coisa, fico muito contente e agradeço.
Se não me dá nada, agradeço-lhe também, porque não mereço mais.
E depois digo-lhe ainda o que me vem à idéia; conto-lhe as minhas tristezas, minhas alegrias, e...ESCUTO.”

A PARTIDA PARA O CÉU E A BEATIFICAÇÃO
Irmã Catarina declina em suas forças e por isso chegara o momento de falar, a Virgem Santíssima a libera de seu segredo. E Irmã Dufés, sua superiora, recebe suas confidências. A sala onde estão está uma penumbra, mas a radiosa evocação de Maria a ilumina. E Catarina diz:
“Ouvi como um ‘frufru’ de um vestido de seda...Eu a vi bela, em sua maior beleza...”
Catarina está transfigurada e Irmã Dufés a contempla com admiração e depois, com emoção é a Irmã Superiora quem se ajoelha diante de sua humilde serva.
No dia 31 de dezembro de 1876, após receber todos os sacramentos, Irmã Catarina parece adormecer e Irmã Dufés relata que nunca tinha visto morte tão calma e serena. “Quase não percebemos que ela deixara de viver.”
Irmã Catarina tinha 70 anos e foi sepultada no dia 3 de janeiro de 1877 e cinquenta e seis mais tarde, o Cardeal Vernier, Arcebispo de Paris fez proceder à exumação, na presença de médicos, da Superiora Geral e outras testemunhas, em virtude da sua beatificação.
“Tal como tinha sido posta no caixão a 3 de janeiro de 1877, assim foi encontrada no dia 21 de março de 1933. O corpo estava intato, os membros flexíveis e foi transferida para a rue du Bac, na capela atual.


É sob o altar da Virgem do Globo que Irmã Catarina repousa, num relicário, no mesmo lugar onde no século anterior Maria lhe aparecera.
A 27 de julho de 1947, S. S. Pio XII a incluía no número dos Santos, Irmã Catarina, humilde e modesta que ele se comprazia em denominar A SANTA DO SILÊNCIO.”

“Eu era só um instrumento.
Não foi por mim
Que a Santíssima Virgem apareceu.
Se ela me escolheu, não sabendo de nada,
é a fim de que ninguém possa duvidar dela.” (Santa Catarina de Labouré)


Fontes: www.chapellenotredamedelamedaillemiraculeuse.com
Catarina Labouré, a Santa do Silêncio, Edições du Berger, P. Bizet, Y. Meyer, Irmã Marie-Geneviève e Comunidade de Fain-les-Moutiers, reeditado em 2011, com autorização superior.

 

 
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